Furia Em Duas Rodas [exclusive] 【Simple】

A fúria evaporou num segundo, deixando apenas o vazio frio de quem quase transformou uma noite comum em estatística. Ele jogou o corpo para a direita com um reflexo que não era coragem, mas sobrevivência pura. A moto raspou o asfalto, o pedal de freio arrancou faíscas. O ônibus passou zunindo, o vento sacudindo o capacete. O Fiesta finalmente entrou à direita e sumiu na chuva.

Foi então que viu o Fiesta prata.

Bruno viu o pneu do Fiesta a trinta centímetros de sua canela. Viu o olho arregalado do motorista do ônibus atrás do para-brisa. Viu a própria mão no guidão – e notou que ela tremia. Não de medo. De vergonha. furia em duas rodas

O mundo virou câmera lenta.

O dia fora um desastre. O chefe o humilhou na obra por um erro que não cometeu. Marina, sua mulher, enviou um áudio de dez minutos reclamando do dinheiro que faltava para o aluguel. E sua mãe ligou do interior: o coração dela estava fraco, e ele não tinha como visitá-la. A impotência corroía o peito como ácido. A fúria evaporou num segundo, deixando apenas o

Aquele era seu território. Ele conhecia cada remendo no asfalto, cada valeta traiçoeira sob as pontes. Pilotava há oito anos, desde os dezoito, e a cidade se tornara uma extensão de seus nervos. Mas naquela noite, a fúria não veio do trânsito.

O asfalto da Marginal Tietê reluzia sob a garoa fina de maio. Para Bruno, não era apenas uma via expressa; era uma arena. E sua arma era uma moto – uma Titan 150 escura, com o escapamento roncando um aviso grave. O ônibus passou zunindo, o vento sacudindo o capacete

Bruno nunca contou sobre a Marginal. Mas naquela noite, antes de dormir, ouviu o ronco distante de outra moto acelerando na avenida. E, pela primeira vez, não sentiu inveja. Sentiu alívio por não estar mais lá.